O Perigo de Enxergar Só Uma Parte da Rede: Por que Sua Análise de Comunicação Pode Estar Te Enganando

Vamos imaginar que vocês querem entender como a informação circula dentro de uma empresa. Para isso, resolvem fazer uma análise de redes organizacionais, a famosa Organizational Network Analysis ou ONA/ARO. A ideia é simples: mapear quem troca informação com quem e, assim, identificar fluxos, gargalos e oportunidades. Parece direto, certo? Pois é aqui que mora um risco grande — e que muita gente ignora.

Se na ONA/ARO você só olha para um sentido do fluxo de informação — “fulano conversa com ciclano” — e não verifica se existe reciprocidade, você corre o risco de enxergar a conexão pela metade. É como mapear ruas sem verificar se elas são mão única ou mão dupla. Em comunicação, isso é crítico: uma troca de informação é muito mais forte e confiável quando é mútua. Sem reciprocidade, você pode acabar achando que certas conexões são mais robustas do que realmente são, ou até acreditar que existem relacionamentos ativos que, na prática, são unilaterais e pouco relevantes para a tomada de decisão.

Outro ponto essencial: muita ONA/ARO é feita a partir de dados de um meio específico. Por exemplo, analisar e-mails, e/ou  mensagens no Teams, ou  chats internos. Isso gera um recorte muito limitado: os resultados dizem respeito exclusivamente àquele meio mapeado — e não à comunicação como um todo. E mesmo que você consiga mapear todos os meios digitais formais de uma empresa, ainda vai faltar um pedaço enorme da história.

A comunicação presencial continua tão importante hoje quanto sempre foi. Conversas de corredor, reuniões improvisadas, trocas rápidas na hora do café —  informações decisivas podem estar circulando, mas não deixam rastros digitais. Além disso, hoje o WhatsApp se tornou um dos principais canais de comunicação no trabalho, mas ele não pode ser mapeado em uma ONA tradicional. Ou seja: mesmo que você levante dados de todos os sistemas corporativos, o presencial e o WhatsApp vão ficar de fora. O resultado será, inevitavelmente, apenas parcial.

E aqui está a chave: por mais sofisticadas que sejam as ferramentas digitais, o ponto de partida e de chegada de qualquer informação continua sendo um ser humano. As informações podem ter passado por um aperto de mão, um telefonema rápido, um post-it deixado na mesa ou uma mensagem no whatsapp. A única forma de ter uma visão realmente global e precisa da rede de comunicação é perguntando diretamente às pessoas sobre com quem elas se comunicam e considerar a reciprocidade.

Ignorar isso é como tentar entender um romance lendo só as mensagens de texto dos personagens — você até pega parte da história, mas perde o contexto, as entrelinhas e, às vezes, até a trama principal.