As guerras, ao longo da história, nunca foram apenas confrontos entre Estados ou líderes. Elas devem ser entendidas como choques entre redes de interesses, tais como:
- Redes econômicas: grandes conglomerados, elites mercantis ou industriais defendendo seus interesses materiais (como acesso a rotas comerciais, recursos naturais, ou mão de obra).
- Redes políticas: alianças de poder, ideologias em disputa, ou projetos de dominação territorial e geopolítica.
- Redes culturais e religiosas: pessoas que se organizam em torno de crenças, valores e identidades coletivas e que frequentemente entram em conflito com redes concorrentes.
Essas redes são compostas por pessoas interligadas por objetivos, ideologias e recursos comuns, e o conflito armado surge quando essas redes se sobrepõem ou entram em disputa. Exemplos históricos:
- Guerras coloniais: redes comerciais europeias (redes de pessoas) colidiram com redes sociais indígenas e africanas, levando à colonização, escravidão e genocídios.
- Guerras mundiais: alianças entre Estados-nações (redes de pessoas) formaram redes militares e econômicas (como a Tríplice Entente e a Tríplice Aliança), e seus interesses imperiais e estratégicos se chocaram.
- Guerras modernas (como no Oriente Médio): há sobreposição de redes de pessoas locais (grupos étnicos, religiosos e tribais), redes geopolíticas (EUA, Rússia, China; redes de pessoas) e redes econômicas (petróleo, indústria armamentista) que também são redes de pessoas.
Tudo isso sempre teve impacto no design social, ou seja, na forma como organizamos as redes em que vivemos. A forma como sociedades foram estruturadas – e continuam sendo – é profundamente influenciada por esses choques. Muitos países foram desenhados a partir de tratados pós-guerra (ex: Acordo Sykes-Picot, Tratado de Versalhes), ignorando redes culturais locais, o que ainda causa conflitos. Estados modernos muitas vezes refletem o legado das redes vencedoras nas guerras (ex: o modelo ocidental de Estado-nação após a Segunda Guerra Mundial).Organizações supranacionais como a ONU ou a OTAN são redes formadas como resposta a choques anteriores. Nacionalismos, mitos históricos e símbolos sociais são desenhados a partir das memórias das guerras, moldando educação, mídia e políticas públicas. Muitas tecnologias sociais (como sistemas de identificação civil, vigilância de massa, ou policiamento) têm origem em contextos militares e de guerra, e são herdadas no design social atual. Hoje, os choques entre redes também ocorrem no ciberespaço (fake news, vigilância, hacktivismo), mostrando que os conflitos evoluíram, mas continuam sendo entre redes humanas interligadas por interesses.
As guerras são expressões violentas de tensões entre redes humanas. Não se pode pensá-las em termos de indivíduos como somos levados a crer quando ouvimos falar sobre Trump, Putin, Xi e etc. Ou quando lemos em livros de história sobre reis absolutistas: não existem indivíduos isolados exercendo o poder e sim redes de pessoas que exercem o poder. Esses conflitos moldam não apenas o passado, mas também a forma como organizamos o presente: nossas leis, fronteiras, valores, tecnologias e até modos de pensar.
Portanto, entender a guerra como um fenômeno de redes em conflito nos permite compreender melhor o design social contemporâneo — e talvez, redesenhar a sociedade com maior consciência dos interesses que estão em jogo. E, quem sabe, as pessoas consigam perceber que matar lideres de redes inimigas não acaba com nenhum conflito, na melhor das hipóteses apenas se ganha algum tempo até que a rede se regenere…