Autodidatismo

O ensino tradicional, com suas salas de aula confinadas, horários rígidos e currículos padronizados, foi concebido para uma sociedade industrial que exigia trabalhadores treinados para seguir ordens, não para questionar ou inovar. O autodidatismo, por outro lado, rompe com essa lógica ao colocar o aprendizado nas mãos do indivíduo, permitindo um desenvolvimento intelectual mais autêntico e alinhado com os interesses e talentos pessoais.

A escola tradicional, apesar de sua importância histórica, muitas vezes sufoca a criatividade ao impor um modelo único de aprendizado, desconsiderando que cada mente funciona de maneira diferente. O ensino mecânico, baseado na memorização e na repetição, forma indivíduos mais preparados para obedecer do que para pensar criticamente. A padronização, que deveria garantir um ensino acessível a todos, acaba sendo um mecanismo de nivelamento por baixo, em que o aluno é moldado para atender a exigências externas, em vez de ser incentivado a explorar seu próprio potencial.

O autodidata, por sua vez, navega pelo conhecimento com liberdade. Ele não precisa esperar a validação de um professor para aprofundar um tema, nem se limitar ao ritmo de uma turma. No entanto, é preciso disciplina, um enorme discernimento para selecionar fontes de informação confiáveis e resiliência.

A sociedade atual, cada vez mais dinâmica e digital, exige um tipo de aprendizado contínuo e adaptável – algo que o modelo escolar tradicional falha em fornecer. O autodidatismo, longe de ser um luxo ou uma alternativa marginal, torna-se uma necessidade para aqueles que querem se destacar em um mundo onde o conhecimento se atualiza a uma velocidade sem precedentes. Daí que atualmente todos nós somos, em maior ou menor medida, autodidatas.

Numa sociedade em que redes de pessoas se apropriam do conhecimento e o utilizam para tirar recursos para viver ou lucrar, caso típico da academia, não espanta que o autodidatismo seja tão mal visto e tão pouco considerado. O que fariam todos os expoentes do conhecimento se qualquer um pudesse se tornar conhecedor de -determinado tema sem ter passado pelo crivo da academia? Um escândalo, uma ameaça!  Então, melhor ignorar e caso não seja possível, desqualificar.

Meus tempos de escola e faculdade foram quase um pesadelo. Sim, também passei pelo ensino tradicional. Lembro bem que a maioria dos alunos queria apenas se livrar da coisa: saber o suficiente para passar nas provas, o que significava responder qualquer coisa de acordo com as expectativas. Algumas “espadas de Dâmocles” sempre estavam sobre as nossas cabeças: a reprovação, que certamente era punida de alguma maneira e mais tarde na faculdade as famosas dependências (dp´s).

Pensando na enorme quantidade de professores que tive percebo que só me lembro com clareza de uma no ensino fundamental (antigo Ginásio): uma professora de português e literatura chamada Sabina. Ela e meu pai foram os grandes responsáveis por meu amor incondicional aos livros (cresci no meio deles).

A habilidade de síntese veio desde tenra idade incentivada pelo meu pai. Para cada trabalho que a escola pedia meu pai abria uns quatro ou cinco livros de enciclopédias (tínhamos muitas) e dizia: “agora se vira”. E eu me virava. Mais tarde, na academia, aprendi a buscar referências sobre qualquer assunto e a comparar ideias para que o trabalho tivesse consistência, além de objetividade e coerência.

Hoje sou autodidata assumida, desenvolvi todo meu projeto de redes trancada em casa acessando a internet e minha biblioteca. Espelho-me  num grupo magnífico de pessoas que ao longo da história contribuíram com invenções, ideias e trabalhos notáveis.

Vejamos alguns autodidatas famosos:

  • Entre os escritores: Simone de Beauvoir, Ray Bradbury, Machado de Assis, José Saramago, Charles Dickens, Carolina de Jesus, etc;
  • Entre os ligados à arte: Jimi Hendrix, Rowan Atkinson, Stanley Kubrick, Woody Allen, Walt Disney, David Bowie, Quentin Tarantino, etc
  • Entre inventores e cientistas: Leonardo Da Vinci, Alexander Graham Bell, Albert Einstein, Marie Curie, Irmãos Wright, Mary Anning, Gregory Mendel, Alfred Russel Wallace, Jane Goodall, Benjamin Franklin, etc
  • Entre fundadores de empresas: Henry Ford (Ford), Walt Disney (Disney), Bill Gates (Microsoft), David Karp (Tumblr), Raul Random (Random), José de Alencar (Império têxtil), etc
  • Importante notar que todos os maravilhosos monumentos do mundo antigo como catedrais, palácios, castelos, pirâmides, etc, foram feitos por amadores!

O autodidatismo é tão antigo quanto a humanidade, mas só recentemente conta com uma desconfiança generalizada. No entanto, penso que isso vai mudar muito rapidamente. Sugata Mitra, pesquisador indiano na área de educação e tecnologia, diz que “os professores estão em extinção assim como os antigos escribas”.

No modelo tradicional de ensino, o professor sempre foi visto como o detentor do saber. A sala de aula era um espaço de transmissão unidirecional de conhecimento, onde o aluno desempenhava o papel passivo de receptor. Esse modelo fazia sentido em uma época em que o acesso à informação era limitado: sem um professor, o conhecimento permanecia inacessível para a maioria.

Contudo, a revolução digital eliminou essa barreira. Hoje, qualquer pessoa com um smartphone tem acesso instantâneo a bibliotecas inteiras, cursos gratuitos de universidades renomadas e ferramentas de aprendizado personalizadas. O professor, antes indispensável para a transmissão do conhecimento, torna-se apenas mais uma fonte de informação, competindo com vídeos do YouTube, fóruns e tutoriais interativos.

A ideia de que os professores estão “em extinção” não significa que a educação deixará de existir, mas que o papel do educador precisa ser radicalmente redefinido. Assim como os escribas não desapareceram completamente, mas se transformaram em novos tipos de profissionais (como editores e jornalistas), os professores precisam evoluir para atuar como mediadores do aprendizado, e não apenas como transmissores de conteúdo.

O professor do futuro será mais um facilitador do pensamento crítico, um mentor que ajuda os alunos a navegar pelo vasto oceano de informações, ensinando a filtrar fontes confiáveis e a construir conhecimento de maneira autônoma. Isso exige uma mudança de paradigma: o foco da educação precisa sair da memorização e da competição (quem tira as melhores notas) e passar para o desenvolvimento de habilidades como criatividade, resolução de problemas e colaboração.

Um autodidata escolhe o que quer aprender, com quem quer aprender e quando quer aprender. Esse é o espírito da nossa época (“Zeitgeist”)!